Sexta-feira, 10 de Setembro de 2010

 

 

 

TRANSTORNO DE MÚLTIPLAS PERSONALIDADES

“CRIAR OUTRAS PESSOAS NA MINHA CABEÇA FOI A MINHA FORMA DE LIDAR DE LIDAR COM OS ABUSOS”

 

Depois de anos a ser abusada pelo pai, Alice Jamieson passou a sofrer de transtorno de múltiplas personalidades. Ela conta como o trauma moldou a sua vida.

Conhecer novas pessoas é stressante para Alice Jamieson – não é o seu nome real – e é em altura de stress que as suas personalidades estão mais propensas para aparecer. Talvez por isso não deva ficar surpreendida quando Alice vem pela primeira vez ao meu encontro na sua casa e não veja nela qualquer sinal da mulher de quarenta anos que está prestes a iniciar um doutoramento. No seu lugar está um rapaz de dez anos chamado JJ, de cabeça inclinada, braços a baloiçar e a falar num voz arrastada e aguda.

Se eu quero ver o seu candeeiro novo? Sigo-o até outro quarto, onde um espectacular candeeiro em forma de avião está pendurado no tecto. Ele faz silvar a hélice e mostra-me um conjunto de letras em madeira para serem coladas à porta. As letras formam a frase “O ANTRO DE JJ”. “Posso vir para aqui e ficar sozinho”, explica.

Sentamo-nos na cozinha e digo a JJ que acho o livro de Alice muito bom. Estou a tentar usar palavras apropriadas para uma conversa com um miúdo de dez anos quando as pernas dele param de baloiçar e ele levanta a cabeça e olha para mim intensamente. Alice está de volta. Ela aperta a minha mão e apresenta-se; não tem qualquer conhecimento da conversa que acabámos de ter.

Quando Alice tinta vinte e quatro anos foi-lhe dito que sofria do transtorno de múltiplas personalidades ou transtorno dissociativo de identidade, uma doença associada a abusos na infância. A certa altura chegou a ter quinze personalidades alternantes, muitas delas crianças com memórias específicas dos abusos por que passara, a grande maioria às mãos do pai, apesar de às vezes ele também permitir o envolvimento de outros adultos.

O transtorno dissociativo de identidade é um elaborado mecanismo de defesa que permite às vítimas de abusos lidar com o que lhes aconteceu. Se uma má experiência é lidada por uma outra pessoa, as boas experiências – talvez com o mesmo adulto com quem se tem uma relação incontornável – podem ser preservadas.

O livro de Alice, O Inferno de Alice, é um relato apaixonante das estratégias que usou para sobreviver a mais de duas décadas de abusos sexuais, físicos e emocionais grotescos. Não é uma leitura confortável mas oferece uma visão única de uma doença mental mais comum do que aquilo que poderíamos pensar. Isto torna-se bastante pertinente quando profissionais da saúde e assistentes sociais debatem sobre a melhor forma para identificar crianças vítimas de abusos. Estima-se que nove em cada dez crianças vítimas de abusos permanecem caladas em relação aos seus passados de sofrimento, mesmo quando já são adultas.

Alice cresceu com os pais numa grande casa nos subúrbios. O pai era um profissional respeitado que gostava de jogar golfe, e ela tinha um irmão mais velho, apesar de ser uma família em que havia pouca comunicação. O pai começou a abusar sexualmente dela quando aos seis meses. Ao longo da sua infância, adolescência e juventude, ele violou-a centenas de vezes. “O meu pai infligiu-me todas as perversões possíveis”, escreve.

Para Alice, enquanto criança, isto era tudo o que ela conhecia e por isso achava normal. Não contou nada a ninguém porque o pai lhe dissera que não iriam acreditar nela, e como “a menina do papá” ela ansiava pela sua atenção. Mas na adolescência ela já era anoréctica, entorpecendo-se com álcool, uma corredora compulsiva e já sofria do transtorno obsessivo-compulsivo. Começou também a ouvir várias vozes que lhe diziam que era uma inútil e que a instigavam a matar-se. Ela já teve mais de cem overdoses e os seus antebraços já levaram mais de seiscentos pontos devido a automutilações. Já foi também toxicodependente.

O livro conta esta história como se fosse uma cortina a ser aberta. Quando era uma criança ela tinha sonhos perturbadores; lentamente começou a compreender que eram memórias reprimidas de acontecimentos reais e de que tinha suportado os abusos dissociando-se deles, ao tornar-se noutra pessoa que guardaria essa memória. Isso significava que tinha perdido o período de tempo em que tinha funcionado como outra pessoa. Com a ajuda de profissionais, alguns dos seus “outros eus” foram integrados, apesar de ela ter decidido ficar com JJ.

“Criar outras pessoas na minha cabeça foi a minha forma de lidar”, afirma Alice. “Eles ficavam com os abusos e eu não me lembrava de nada do que se passara. O JJ é a minha principal personalidade alternante. Acho que ele representa a infância que nunca tive. É importante ter essa capacidade para nos sentarmos e brincar.”

JJ reaparece um minuto depois. Ele dá risadas, pergunta o meu nome outra vez, depois diz: “Estou a intrometer-me outra vez. Tens perguntas a fazer.” Vou encontrá-lo mais cinco vezes.

A grande questão que a história de Alice levanta é por que razão ninguém fez nada. A mãe e o irmão não souberam de nada até ela lhes contar quando já era adulta, apesar de aos dois anos de idade ter sofrido uma fissura anal e de ter sido repetidamente internada no hospital devido a cistites enquanto era criança. Agora, parte da sua missão é assegurar que todos os profissionais que trabalham com crianças reconheçam os sinais.

“Não sei por que razão os alarmes não soaram na escola. Aos catorze, quinze anos sofria de depressão. Adormecia nas aulas, mas, no entanto, ninguém fazia perguntas. Quando era adolescente um pedopsiquiatra perguntou-me directamente: ‘Já foi vítima de abusos?’ O que se deve dizer quando se vive em casa com os pais? Não vamos dizer que sim, já que desde cedo foi-nos incutido o temor a Deus – e ninguém acreditaria em nós.”

Nos anos 70 e 80 não existia um grande debate em torno dos abusos sexuais e, mesmo agora, eles são mais usualmente associados a condições miseráveis do que à classe média. Foi essa a protecção do pai. Quando, aos vinte e um anos, o confrontou com o facto de ter abusado dela, ele violou-a sob a ameaça de uma faca e espancou-a com tanta violência que ela precisou de receber tratamento hospitalar.

Em 1999, ela acabou por apresentar queixa na polícia, que procedeu a investigações – mas o pai, que negou as acusações de que era alvo, não foi formalmente acusado, em grande parte devido ao debilitado estado de saúde mental de Alice na altura. O abuso foi, no entanto, confirmado pela Autoridade para a Compensação de Danos Criminais, que levou a cabo uma investigação de dois anos e meio e lhe atribuiu uma indemnização de mais de quatrocentas mil libras. Ela recebeu também uma carta da força policial local confirmando a crença deles de que lhes tinha dito a verdade.

Grande parte da vida dela tem sido solitária. Não sabendo como ter uma relação amorosa, ela tem-nas evitado. A sua recuperação tem muito a ver com Alec, que conheceu há três anos, quando ele era fabriqueiro. Um homem jovial na casa dos sessenta, ele passa o tempo a brincar com JJ. “Ele deu-me um apoio incondicional”, afirma Alice, “nunca me julgou. Nunca disse nada sobre acreditar ou não e não ficou perturbado pelo que disse. Se não tivesse estabelecido esse laço com ele, já estaria morta agora.” O livro foi também catártico: “Quase mais do que qualquer terapia que já tive, pois descrevi o que aconteceu.”

É difícil relatar a experiência de ter conhecido Alice sem poder descrever a voz dela, os seus modos, a forma como olha para nós, já que tudo isso poderia identificá-la e, consequentemente, ao pai, o que, por questões legais, estamos impedidos de o fazer. Mas posso dizer que quando nos despedimos ela beijou-me entusiasticamente nas faces. Para uma mulher que sofreu tantos traumas que até há poucos anos nem suportaria ser tocada, é um bom sinal.

 

(Artigo da autoria de Penny Wark, publicado no The Times, no dia 11 de Maio de 2009)



publicado por Rita Mello às 01:30 | link do post | comentar | favorito
















































































































































































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